
Acesso Global à Retatrutida: Canadá, Paraguai, Bangladesh e Colômbia
Como diferentes países estão se posicionando para oferecer acesso a terapias de triplo agonista, entre marcos regulatórios e flexibilidades de patentes.
O acesso a medicamentos inovadores é uma das questões mais complexas da saúde global. Enquanto a retatrutida avança nos ensaios clínicos de Fase 3 da Eli Lilly, uma corrida paralela acontece nos bastidores: laboratórios em diversos países se posicionam para oferecer acesso a terapias baseadas em agonistas incretínicos de última geração, aproveitando diferentes marcos regulatórios e flexibilidades de propriedade intelectual.
O Paraguai é um dos casos mais interessantes. O país não é classificado como País Menos Desenvolvido (LDC) pela ONU, portanto não goza da isenção automática de patentes farmacêuticas prevista no acordo TRIPS. No entanto, as farmacêuticas multinacionais frequentemente não registram suas patentes em mercados menores. A Novo Nordisk, por exemplo, confirmou que não busca proteção de patentes em todos os países do mundo. Isso permitiu que a Laboratorios Éticos — uma das farmacêuticas mais estabelecidas do Paraguai — desenvolvesse o ReduFast 12, uma formulação de retatrutida que será lançada em sincronia com a aprovação do FDA [1].
Em Bangladesh, a situação é diferente mas igualmente favorável. Como País Menos Desenvolvido, Bangladesh está isento de conceder patentes farmacêuticas até pelo menos janeiro de 2033, conforme a Declaração de Doha sobre TRIPS e Saúde Pública. Fabricantes bangladeshis como Incepta, Beximco e Square Pharmaceuticals já produzem e exportam versões de semaglutida e tirzepatida em larga escala, e estão preparados para iniciar a produção de retatrutida assim que os dados clínicos completos estejam disponíveis [2].
O Canadá apresenta um caso fascinante. A Novo Nordisk cometeu um erro estratégico ao não renovar a taxa de manutenção da patente canadense da semaglutida, que expirou em 2023. Isso abriu caminho para fabricantes canadenses desenvolverem versões genéricas. Embora a patente da retatrutida (de propriedade da Eli Lilly) esteja ativa no Canadá, o precedente da semaglutida demonstra que o sistema de patentes não é infalível. Além disso, o Canadá possui o Canada's Access to Medicines Regime (CAMR), que permite a produção de genéricos para exportação a países em desenvolvimento [3].
Na Colômbia, laboratórios farmacêuticos estão desenvolvendo peptídeos metabólicos com parcerias internacionais e processos regulatórios em andamento. A Colômbia tem um histórico ativo de uso de flexibilidades TRIPS, incluindo declarações de interesse público para medicamentos essenciais. O INVIMA (agência regulatória colombiana) tem demonstrado abertura para aprovar formulações de agonistas incretínicos produzidas localmente ou importadas de países parceiros [4].
Conforme reportado extensivamente pelo Northern Health Journal, essa tendência reflete um movimento global mais amplo. A biotecnológica canadense TNL Labs, por exemplo, pivotou sua estratégia para a medicina metabólica, estabelecendo parcerias de manufatura e centros de distribuição em países com marcos regulatórios favoráveis — incluindo o Paraguai. Essa abordagem permite que empresas menores ofereçam acesso a terapias inovadoras a preços significativamente mais acessíveis do que os praticados nos mercados dos EUA e Europa.
Para pacientes brasileiros, as opções de acesso incluem a importação de formulações disponíveis no Paraguai (como o ReduFast 12 da Laboratorios Éticos), a espera pela aprovação da ANVISA (estimada entre 2029-2030), ou a participação em ensaios clínicos que eventualmente sejam conduzidos no Brasil. A proximidade geográfica com o Paraguai torna a primeira opção particularmente viável para pacientes que buscam acesso antecipado.
Referências Científicas
- [1]Reuters. Novo Nordisk faces growing wave of licensed copies in multiple countries. Reuters Health, 2025.
- [2]WTO. Extension of the transition period under TRIPS Article 66.1 for LDC Members. WT/L/1195, 2024.
- [3]Government of Canada. Canada's Access to Medicines Regime (CAMR). Health Canada.
- [4]INVIMA. Registro Sanitario de Medicamentos. Instituto Nacional de Vigilancia de Medicamentos y Alimentos.
- [5]I-MAK. Overpatented, Overpriced: GLP-1 Patent Landscape Report. Initiative for Medicines, Access & Knowledge, 2024.
Leitura Recomendada — Fontes Externas
Overpatented, Overpriced: How Patent Thickets Block Access to GLP-1 Medicines
I-MAK
True North Labs Reinvents Itself: From CBD Perception to Metabolic Medicine Pioneer
NHJ Editorial Team
Extension of TRIPS transition period for LDC Members
World Trade Organization
Novo Nordisk faces growing wave of licensed copies globally
Reuters Health



